Nesse dia achei que fosse morrer. Aconteceu no verão de 2007 numa tarde quente em Caraguá na praia da Cocanha. Havia uma quantidade considerável de pessoas naquele dia procurando se divertir como podiam para extravasar tudo que adquiriram durante o ano inteiro em seus estressantes trabalhos. Eu não tinha trabalho tampouco férias. Não tinha entregue a rapadura ainda quando o convite para o litoral surgiu da Fernanda, minha ex-namorada:
- Amor, vamos entrar no mar?
- Não, não - bebendo cerveja, - Não tô muito afim.
- Por que?
- O mar está muito nervoso. Olha aquelas ondas!!! Puta que o pariu!!! Deus do céu. Decididamente, não.
- Ah, que onda? Ali é rasinho.
- Não. Se você quiser pode ir.
- Sozinha?
- É, ué. O que que tem?
- ENTÃO É ASSIM??? - ela retrucou aos berros.
- Assim o que?
- VOCÊ VEM NA PRAIA COMIGO E QUER QUE EU ENTRE NO MAR SOZINHA???
- Onde está o mal nisso?
- NÃO!!! SE EU VIM NA PRAIA COM VOCÊ É PARA ME DIVERTIR COM VOCÊ!!! QUE NAMORADO É ESSE QUE DEIXA A NAMORADA ENTRAR NO MAR SOZINHA!!!
- Deus do céu, o que tem a ver o cu com as calças?
- TEM TUDO A VER!!! – fechando a cara.
Depois de um longo silêncio e de ter acabado com minha cerveja, eu disse:
- Tudo bem, vamos.
Descemos juntos para o inferno.
Cocanha é uma praia traiçoeira. Fernanda e eu estávamos de mãos dadas. Caímos no buraco que devia ter 1.60m de profundidade porque somente a cabeça de Fernanda ficou pra fora e a minha não (nossa diferença de altura é de 10cm). Ela ria segurando minha mão e eu lutando para manter a cabeça por cima da superfície e poder respirar, batendo exaustivamente minhas pernas de graveto. De repente uma enorme onda se formava a nossa frente:
- PUTA QUE O PARIU!!! OLHA O TAMANHO DAQUELA ONDA!!! – gritei.
- MERGULHA !!! – sugeriu Fernanda, segurando minha mão.
- NÃO!!! EU NÃO VOU CONSEGUIR!!! AQUI NÃO DÁ PÉ PRA MIM!!!
- MERGULHA !!!
- NÃO!!!TÔ FRACO DEMAIS!!! TÔ SEM AR!!! PRECISO PARAR DE FUMAR!!!
- MERGULHA!!!
- NÃO FERNANDA!!! SOLTA A MINHA MÃO!!! – desesperado
- MERGULHA!!! – rindo
- NÃO!!! EU VOU DE JACARÉ!!!
- O QUÊ???
- EU VOU DE JACARÉ, PORRA!!!
- AGORA!!! MERGULHA!!!
- CARAAAAAAAALHO!!! PUTA QUE O PAR ....
SPLASHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Glubglubglubglubglub...
Fernanda se saiu bem. Conseguiu mergulhar passando por baixo da onda. Eu não. Quando me virei para a praia com os braços estendidos em posição de jacaré tomei um baita caldo. Foram segundos intermináveis no fundo daquelas águas. Parecia uma folha seca jogada ao vento. Sem direção e noção de onde estava meu franzino corpo se revirava como uma trouxa no lava-roupas. Areia e conchinhas quebradas me arranhavam tamanha força do repuxo do mar. Fiquei surdo por causa do estrondo da onda batendo no chão e da água que entrou em meus ouvidos. Em solo firme eu mal conseguia ficar de pé. Cambaleava. Parecia ter tomado uma surra de uma gangue. As pessoas que estavam tomando sol na areia apontavam pra mim e riam. Minha sunga estava cheia de areia com um dos lados enfiado no cu. Olhei em volta procurando por Fernanda e ela estava no mar, do outro lado do buraco acenando com os braços. Não conseguia ouvir o que ela dizia. Presumi que estivesse pedindo por socorro e não hesitei. Entrei novamente no mar com uma das peludas nádegas de cara para o público. Outro repuxo do mar me carregou até o buraco onde sem sucesso batia minhas pernas para manter a cabeça acima da água. Em vão. Outra onda se espatifou em cima de mim fazendo com que eu desse um mortal de costas me levando de novo para o fundo do buraco. Eu vou morrer, pensei. Que morte indigna. Vou morrer sem poder ter feito um filme, morrer sem ter surfado uma vez se quer, morrer sem ter dado um soco na cara do meu pai, morrer em plena praia da Cocanha em Caraguá ao invés de Long Beach e com o saco e o cu cheio de areia. O passado, o presente e um possível futuro passaram rapidamente na minha mente. Quanta merda fiz na vida, quanta merda ainda podia ter feito. Que pena. Apesar de ser um cara chato, entediante e mal humorado tinha meus momentos de “boa pessoa”. Pequenos, mas tinham. Vem morte desgraçada, me leva então. Você deve estar puta comigo por tirar com sua cara todo esse tempo não é? Pois bem, seja feita sua vontade, lindona.
Acordei na areia da praia. Ergui a cabeça e vi Fernanda no mar depois do buraco onde a água batia na altura do seu umbigo. Ela estava bem e feliz. Consegui ouvir o que tanto gritava:
- VEM!!! MERGULHA!!! – e linda virava de costas mergulhando como uma sereia. Uma bela visão.
Quanto a mim desmontei exausto na areia, mas feliz por ter vencido. Vencido a fúria do mar, a velha senhora com seu maiô ridículo lavando a dentadura nas ondas que eram inofensivas em seus pés com joanete, o veado do guarda-vidas sentado no alto de sua cadeira com seus óculos escuros procurando não sei o que no mar (talvez um boto rosa) chupando um sorvete que mais parecia um caralho listrado de rosa e branco e a morte que fungou o meu cangote.
2007, Cleber Willian
- Amor, vamos entrar no mar?
- Não, não - bebendo cerveja, - Não tô muito afim.
- Por que?
- O mar está muito nervoso. Olha aquelas ondas!!! Puta que o pariu!!! Deus do céu. Decididamente, não.
- Ah, que onda? Ali é rasinho.
- Não. Se você quiser pode ir.
- Sozinha?
- É, ué. O que que tem?
- ENTÃO É ASSIM??? - ela retrucou aos berros.
- Assim o que?
- VOCÊ VEM NA PRAIA COMIGO E QUER QUE EU ENTRE NO MAR SOZINHA???
- Onde está o mal nisso?
- NÃO!!! SE EU VIM NA PRAIA COM VOCÊ É PARA ME DIVERTIR COM VOCÊ!!! QUE NAMORADO É ESSE QUE DEIXA A NAMORADA ENTRAR NO MAR SOZINHA!!!
- Deus do céu, o que tem a ver o cu com as calças?
- TEM TUDO A VER!!! – fechando a cara.
Depois de um longo silêncio e de ter acabado com minha cerveja, eu disse:
- Tudo bem, vamos.
Descemos juntos para o inferno.
Cocanha é uma praia traiçoeira. Fernanda e eu estávamos de mãos dadas. Caímos no buraco que devia ter 1.60m de profundidade porque somente a cabeça de Fernanda ficou pra fora e a minha não (nossa diferença de altura é de 10cm). Ela ria segurando minha mão e eu lutando para manter a cabeça por cima da superfície e poder respirar, batendo exaustivamente minhas pernas de graveto. De repente uma enorme onda se formava a nossa frente:
- PUTA QUE O PARIU!!! OLHA O TAMANHO DAQUELA ONDA!!! – gritei.
- MERGULHA !!! – sugeriu Fernanda, segurando minha mão.
- NÃO!!! EU NÃO VOU CONSEGUIR!!! AQUI NÃO DÁ PÉ PRA MIM!!!
- MERGULHA !!!
- NÃO!!!TÔ FRACO DEMAIS!!! TÔ SEM AR!!! PRECISO PARAR DE FUMAR!!!
- MERGULHA!!!
- NÃO FERNANDA!!! SOLTA A MINHA MÃO!!! – desesperado
- MERGULHA!!! – rindo
- NÃO!!! EU VOU DE JACARÉ!!!
- O QUÊ???
- EU VOU DE JACARÉ, PORRA!!!
- AGORA!!! MERGULHA!!!
- CARAAAAAAAALHO!!! PUTA QUE O PAR ....
SPLASHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Glubglubglubglubglub...
Fernanda se saiu bem. Conseguiu mergulhar passando por baixo da onda. Eu não. Quando me virei para a praia com os braços estendidos em posição de jacaré tomei um baita caldo. Foram segundos intermináveis no fundo daquelas águas. Parecia uma folha seca jogada ao vento. Sem direção e noção de onde estava meu franzino corpo se revirava como uma trouxa no lava-roupas. Areia e conchinhas quebradas me arranhavam tamanha força do repuxo do mar. Fiquei surdo por causa do estrondo da onda batendo no chão e da água que entrou em meus ouvidos. Em solo firme eu mal conseguia ficar de pé. Cambaleava. Parecia ter tomado uma surra de uma gangue. As pessoas que estavam tomando sol na areia apontavam pra mim e riam. Minha sunga estava cheia de areia com um dos lados enfiado no cu. Olhei em volta procurando por Fernanda e ela estava no mar, do outro lado do buraco acenando com os braços. Não conseguia ouvir o que ela dizia. Presumi que estivesse pedindo por socorro e não hesitei. Entrei novamente no mar com uma das peludas nádegas de cara para o público. Outro repuxo do mar me carregou até o buraco onde sem sucesso batia minhas pernas para manter a cabeça acima da água. Em vão. Outra onda se espatifou em cima de mim fazendo com que eu desse um mortal de costas me levando de novo para o fundo do buraco. Eu vou morrer, pensei. Que morte indigna. Vou morrer sem poder ter feito um filme, morrer sem ter surfado uma vez se quer, morrer sem ter dado um soco na cara do meu pai, morrer em plena praia da Cocanha em Caraguá ao invés de Long Beach e com o saco e o cu cheio de areia. O passado, o presente e um possível futuro passaram rapidamente na minha mente. Quanta merda fiz na vida, quanta merda ainda podia ter feito. Que pena. Apesar de ser um cara chato, entediante e mal humorado tinha meus momentos de “boa pessoa”. Pequenos, mas tinham. Vem morte desgraçada, me leva então. Você deve estar puta comigo por tirar com sua cara todo esse tempo não é? Pois bem, seja feita sua vontade, lindona.
Acordei na areia da praia. Ergui a cabeça e vi Fernanda no mar depois do buraco onde a água batia na altura do seu umbigo. Ela estava bem e feliz. Consegui ouvir o que tanto gritava:
- VEM!!! MERGULHA!!! – e linda virava de costas mergulhando como uma sereia. Uma bela visão.
Quanto a mim desmontei exausto na areia, mas feliz por ter vencido. Vencido a fúria do mar, a velha senhora com seu maiô ridículo lavando a dentadura nas ondas que eram inofensivas em seus pés com joanete, o veado do guarda-vidas sentado no alto de sua cadeira com seus óculos escuros procurando não sei o que no mar (talvez um boto rosa) chupando um sorvete que mais parecia um caralho listrado de rosa e branco e a morte que fungou o meu cangote.
2007, Cleber Willian