terça-feira, 11 de setembro de 2007

A morte fungando o cangote

Nesse dia achei que fosse morrer. Aconteceu no verão de 2007 numa tarde quente em Caraguá na praia da Cocanha. Havia uma quantidade considerável de pessoas naquele dia procurando se divertir como podiam para extravasar tudo que adquiriram durante o ano inteiro em seus estressantes trabalhos. Eu não tinha trabalho tampouco férias. Não tinha entregue a rapadura ainda quando o convite para o litoral surgiu da Fernanda, minha ex-namorada:

- Amor, vamos entrar no mar?
- Não, não - bebendo cerveja, - Não tô muito afim.
- Por que?
- O mar está muito nervoso. Olha aquelas ondas!!! Puta que o pariu!!! Deus do céu. Decididamente, não.
- Ah, que onda? Ali é rasinho.
- Não. Se você quiser pode ir.
- Sozinha?
- É, ué. O que que tem?
- ENTÃO É ASSIM??? - ela retrucou aos berros.
- Assim o que?
- VOCÊ VEM NA PRAIA COMIGO E QUER QUE EU ENTRE NO MAR SOZINHA???
- Onde está o mal nisso?
- NÃO!!! SE EU VIM NA PRAIA COM VOCÊ É PARA ME DIVERTIR COM VOCÊ!!! QUE NAMORADO É ESSE QUE DEIXA A NAMORADA ENTRAR NO MAR SOZINHA!!!
- Deus do céu, o que tem a ver o cu com as calças?
- TEM TUDO A VER!!! – fechando a cara.

Depois de um longo silêncio e de ter acabado com minha cerveja, eu disse:

- Tudo bem, vamos.

Descemos juntos para o inferno.

Cocanha é uma praia traiçoeira. Fernanda e eu estávamos de mãos dadas. Caímos no buraco que devia ter 1.60m de profundidade porque somente a cabeça de Fernanda ficou pra fora e a minha não (nossa diferença de altura é de 10cm). Ela ria segurando minha mão e eu lutando para manter a cabeça por cima da superfície e poder respirar, batendo exaustivamente minhas pernas de graveto. De repente uma enorme onda se formava a nossa frente:

- PUTA QUE O PARIU!!! OLHA O TAMANHO DAQUELA ONDA!!! – gritei.
- MERGULHA !!! – sugeriu Fernanda, segurando minha mão.
- NÃO!!! EU NÃO VOU CONSEGUIR!!! AQUI NÃO DÁ PÉ PRA MIM!!!
- MERGULHA !!!
- NÃO!!!TÔ FRACO DEMAIS!!! TÔ SEM AR!!! PRECISO PARAR DE FUMAR!!!
- MERGULHA!!!
- NÃO FERNANDA!!! SOLTA A MINHA MÃO!!! – desesperado
- MERGULHA!!! – rindo
- NÃO!!! EU VOU DE JACARÉ!!!
- O QUÊ???
- EU VOU DE JACARÉ, PORRA!!!
- AGORA!!! MERGULHA!!!
- CARAAAAAAAALHO!!! PUTA QUE O PAR ....

SPLASHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Glubglubglubglubglub...

Fernanda se saiu bem. Conseguiu mergulhar passando por baixo da onda. Eu não. Quando me virei para a praia com os braços estendidos em posição de jacaré tomei um baita caldo. Foram segundos intermináveis no fundo daquelas águas. Parecia uma folha seca jogada ao vento. Sem direção e noção de onde estava meu franzino corpo se revirava como uma trouxa no lava-roupas. Areia e conchinhas quebradas me arranhavam tamanha força do repuxo do mar. Fiquei surdo por causa do estrondo da onda batendo no chão e da água que entrou em meus ouvidos. Em solo firme eu mal conseguia ficar de pé. Cambaleava. Parecia ter tomado uma surra de uma gangue. As pessoas que estavam tomando sol na areia apontavam pra mim e riam. Minha sunga estava cheia de areia com um dos lados enfiado no cu. Olhei em volta procurando por Fernanda e ela estava no mar, do outro lado do buraco acenando com os braços. Não conseguia ouvir o que ela dizia. Presumi que estivesse pedindo por socorro e não hesitei. Entrei novamente no mar com uma das peludas nádegas de cara para o público. Outro repuxo do mar me carregou até o buraco onde sem sucesso batia minhas pernas para manter a cabeça acima da água. Em vão. Outra onda se espatifou em cima de mim fazendo com que eu desse um mortal de costas me levando de novo para o fundo do buraco. Eu vou morrer, pensei. Que morte indigna. Vou morrer sem poder ter feito um filme, morrer sem ter surfado uma vez se quer, morrer sem ter dado um soco na cara do meu pai, morrer em plena praia da Cocanha em Caraguá ao invés de Long Beach e com o saco e o cu cheio de areia. O passado, o presente e um possível futuro passaram rapidamente na minha mente. Quanta merda fiz na vida, quanta merda ainda podia ter feito. Que pena. Apesar de ser um cara chato, entediante e mal humorado tinha meus momentos de “boa pessoa”. Pequenos, mas tinham. Vem morte desgraçada, me leva então. Você deve estar puta comigo por tirar com sua cara todo esse tempo não é? Pois bem, seja feita sua vontade, lindona.

Acordei na areia da praia. Ergui a cabeça e vi Fernanda no mar depois do buraco onde a água batia na altura do seu umbigo. Ela estava bem e feliz. Consegui ouvir o que tanto gritava:

- VEM!!! MERGULHA!!! – e linda virava de costas mergulhando como uma sereia. Uma bela visão.

Quanto a mim desmontei exausto na areia, mas feliz por ter vencido. Vencido a fúria do mar, a velha senhora com seu maiô ridículo lavando a dentadura nas ondas que eram inofensivas em seus pés com joanete, o veado do guarda-vidas sentado no alto de sua cadeira com seus óculos escuros procurando não sei o que no mar (talvez um boto rosa) chupando um sorvete que mais parecia um caralho listrado de rosa e branco e a morte que fungou o meu cangote.



2007, Cleber Willian

Minha primeira mulher nua

- Vamos pra casa da vó.

E mais uma vez minha mãe segurava minha mão e me conduzia atravessando sempre três ruas todos os domingos para o almoço na casa da vó. Ano de 1983, Jacareí era pequena e medíocre como é hoje. Devia ter no máximo 200 mil habitantes. Todos conheciam todos. Eu devia ter uns 5 anos mas o suficiente para sentir que estava no lugar errado. A distância entre a casa da vó e onde eu morava com meus pais era de uns 200 metros, mas pra mim, uma eternidade. Na Rua Dr. Lúcio Malta de paralelepípedos, sem carros e com carroças por ser domingo, minha mãe atravessava comigo sempre no meio da rua, nunca pela faixa de pedestres. Do lado esquerdo o Parque dos Eucaliptos sendo iluminado pelos raios de sol da manhã. Não sei porque, mas eu gostava de ver os eucaliptos enormes sendo atravessados pelos raios de sol. Que idiotice. Ao dobrar a esquina com a Ladeira Rodolfo Siqueira, lá estava ele, sentado em sua cadeira de praia amarela como todos os domingos.

Vovô esteve na Segunda Guerra Mundial, não no front, mas na cozinha. Ele era ajudante de cozinheiro. Descascava batatas segundo meu pai. Tinha os olhos claros e o olhar brando, não sei por que razão, mas me sentia bem ao seu lado, sempre assobiando. Vovô era um cara bonito, legal e calado. Sabe muito que fala pouco.

- Benção pro vô. – dizia minha mãe.
- Bença vô.
- Deus lhe abençoe. – sorrindo.

Atravessamos a rua e entramos na casa da vó. A porta ficava sempre aberta para rua onde dava para avistar o vovô na outra calçada. Eu não queria entrar, queria ficar ali sentado na calçada ao lado dele em silêncio apenas ouvindo seu assobio. Dentro da casa:

- Santinho número 1!

Era assim que minha avó me chamava por ser o mais velho de seus três netos. Fábio era o santinho número 2 e Eduardo o santinho número 3. Coitada. Depois das saudações, beijos, abraços, que fofinho, aperto nas bochechas, blá, blá, blá, sentávamos a mesa.
Na mesa estavam a vovó, tia Nena, Tia Ester, Tio Brandão, meu primo Fábio, minha mãe, meu pai, eu e ele, sempre chegando por último carregado a cadeira de praia e assobiando pelo corredor, vovô. Sentava quieto e comia quieto. Uma vez ou outra falava alguma coisa engraçada. Tinha veia pra comédia o desgraçado. Muito barulho. Todos falavam e riam ao mesmo tempo. Assuntos diferentes. Uma confusão. Barulho de gás saindo das garrafas de refrigerante, tia Nena ria, engasgava e tussia, talheres batendo nos pratos, molho de macarrão no canto de algumas bocas, pedaço de frango assado sobre a mesa e a maionese acabando.

Vovô só observava e eu observava ele. De vez em quando trocávamos olhares e sorrisos como se fossemos comparsas. Às vezes parecia que ele não era da família, que estava ali apenas para comer e depois ir embora. Ele era diferente e isso me entretia. De repente ele levanta uma das pernas e solta um puta peido estrondoso:

- Vanilo! Seu porco! – grita minha vó.

Meu vô ria, alguns riam junto e outros faziam aquela cara de nojo. Era muito engraçado. O desgraçado não fazia porra nenhuma e quando fazia provocava reação em todos. Gostava disso. Depois do almoço as mulheres de um lado lavavam louça sempre tagarelando, meu pai e tio Brandão do outro conversavam sobre trabalho e viagens, meus primos não me lembro e vovô voltava para a rua. Desta vez fui atrás. Queria aprender coisas com ele. Depois de algum tempo quando todos estavam dentro da casa vovô e eu estávamos na rua. Dava a impressão que toda a cidade estava dormindo e só os caras maus estavam acordados, tramando alguma coisa. Gostava disso. Então vovô pede para que chegasse mais perto dele. Ele queria me mostrar alguma coisa. Ele dobra algumas vezes a manga de sua camisa e lá estava ela, no seu braço esquerdo na parte interna começando no pulso e indo até a altura do cotovelo, uma tosca tatuagem de mulher pelada. Nunca vou esquecer. Eu não estava entendo muito bem o que vovô queria dizer me mostrando aquela tatuagem certamente feita na Itália durante a guerra, só sei que ele arregalando seus brandos olhos sorria e o idiota aqui entendendo merda nenhuma sorria junto. Então ele sussurrou em meu ouvido:

- Olhe, agora ela vai dançar.

Então o desgraçado fazia ela se mover. Fiquei boquiaberto. Era linda. Minha primeira mulher nua dançando para mim. Era mágica. Só fui descobrir anos mais tarde como ele fazia aquilo, ele simplesmente fechava e abria os punhos. Filho da puta. De repente alguém segura minha mão:

-Tchau pro vô. – dizia minha mãe.
- Tchau vô.
- Tchau.

E fomos embora acompanhados por seu assobio.

Vovô morreu alguns anos mais tarde. Um dos motivos principais foi o álcool. Vovô bebeu muito durante grande parte de sua vida e nos últimos dias dela estava muito magro, irreconhecível. A boca não tinha mais dentes, seu olhar era vago e sempre na direção onde seu nariz apontava, falava coisas estranhas, delirava. Precisava de ajuda para mijar e cagar.
No velório e enterro todos choravam menos eu. Não sabia porque. Algumas velhas com terços nas mãos me diziam que ele foi pro céu, então pensava comigo: porra, vovô era uma cara esperto, se ele foi para o céu é porque lá tinha alguma coisa legal então eu queria ir também mas vendo aquelas pessoas chorando mudei de idéia. Depois do enterro voltamos para casa da vó desta vez todos em silêncio. O almoço de domingo não é mais o mesmo. Foi embora vovô, o assobio e minha primeira mulher nua.

Bença vô.


2004, Cleber Willian